O umbigo de Heitor – Uma história de pânico, ironia e má digestão
Obra Literária
O umbigo de Heitor – Uma história de pânico, ironia e má digestão
31 de agosto de 2025 0
“Antes da internet: – Vou fazer pós-doutorado em literatura neozelandesa do sec. XIX Depois da internet: – Como escreve embigo” Quando você pensa em memes, você pensa neste, especificamente. Você, Heitor, não conhece nenhum mais engraçado. Tudo nele é perfeito: o deboche da ignorância em tempos de internet, o exagero sem pudor, a falta de interrogação na frase final — que é uma pergunta, afinal de contas. E você acha que o principal nele é o maravilhoso “embigo”. Podia ser “imbigo” também — que você se lembra de ter ouvido na infância —, mas é “embigo”, que enfim parece ser uma forma mais sofisticada de falar errado. Pensando agora, você não sabe por que acha tão engraçado esse meme, já que seu próprio umbigo não lhe dá nenhuma alegria. Ele é bonito, e tal, mas sensível demais. Sua mulher vive querendo limpá-lo, e você tem pânico quando pensa nisso. Às vezes você, Heitor, pensa que, se fosse um habitante de um país menos paranoico com a higiene pessoal — a Nova Zelândia, por exemplo —, seu umbigo sujo e dolorido não seria algo menos asqueroso. Enfim, com a pandemia você, Heitor, engordou, e agora que o seu umbigo cresceu, ficou mais importante, mais dolorido. Um horror — são muitos os horrores que o umbigo lhe traz. Junto com a pandemia também veio a má digestão, Heitor. Os bifes que você ama passaram a significar um verdadeiro terror para você. Os sucos de fruta, nossa. Pães. Você ama pães. Mas assim que os come, parece que eles ficam parados no meio do caminho. Então, Heitor, foram duas más notícias que você teve com a pandemia: dor de umbigo e má digestão. A primeira seria resolvida com um emagrecimento — que você não tinha a menor vontade de fazer. A segunda poderia também ser resolvida do mesmo modo, mas será mesmo? Você não poderia estar com algum outro problema? Então você resolve ir ao médico, que faz uma ecografia abdominal e lhe dá o veredito: você tem que tirar a vesícula. O veredito do médico — E como é o procedimento? — você pergunta, Heitor. — Ah, é simples, risco mínimo — o médico responde, como se fosse a coisa mais simples do mundo. — Por laparoscopia, são feitos quatro furos nos quais entram as câmeras, os bisturis, e por onde sai a vesícula. — E onde são esses furos? — você pergunta de novo, Heitor. E o médico explica que são três na barriga e que a vesícula sai pelo umbigo. Você entra em pânico, Heitor. Fica temendo pela dor no umbigo até se operar. Mal consegue dormir. Diz para todo mundo que está em pânico. Diz que não quer ninguém mexendo no seu umbigo. Porque seu umbigo dói, Heitor, e porque você tem má digestão. E você tem que tirar a vesícula, coisa que você não queria fazer. Enfim, você tira a vesícula, e no pós-operatório sente dor no umbigo, nos cortes, na barriga. Mas não é aquela dor que você imaginou. Não foi aquela tragédia toda. Você é ridículo, Heitor. Ridículo. (Conto presente em “A mulher de César”, coletânea a ser publicada ainda neste ano. Ilustrações geradas por IA – Google Gemini.)
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A Vulnerabilidade na Música: Uma Discussão com o Google Gemini
Música
A Vulnerabilidade na Música: Uma Discussão com o Google Gemini
22 de agosto de 2025 0
Gracie abrams e elliott smith estão certamente entre os cinco cantores que mais amo. Você acha que eles têm alguma semelhança? É fascinante como você consegue conectar dois artistas de épocas tão diferentes, mas com algo em comum. Embora o som e o contexto deles sejam bem distintos, sim, Gracie Abrams e Elliott Smith têm semelhanças notáveis. A principal conexão entre eles é a abordagem íntima e confessional na composição. Ambos criam um universo musical que parece ser um sussurro ou uma conversa privada com o ouvinte. Veja algumas das semelhanças mais marcantes: Voz e Performance: Tanto Gracie quanto Elliott têm um estilo vocal suave, quase sussurrado, que imediatamente atrai a atenção para as letras. Elliott era conhecido por seu uso de camadas vocais em suas gravações, enquanto a voz de Gracie muitas vezes soa como se tivesse sido gravada no quarto, dando uma sensação de proximidade e vulnerabilidade. Composição Focada nas Letras: As letras são o coração do trabalho de ambos. Eles exploram emoções cruas, vulnerabilidade e a complexidade das relações pessoais. As canções de Elliott são frequentemente descritas como poéticas e melancólicas, com uma profundidade que muitos acham incomparável. Gracie, por sua vez, é aclamada por sua habilidade em transformar detalhes cotidianos em narrativas líricas que ressoam com a Geração Z. Influência e Gênero: Curiosamente, Gracie Abrams já citou Elliott Smith como uma de suas influências musicais. Embora ele seja categorizado principalmente como indie folk e lo-fi, e ela como indie pop ou “bedroom pop”, ambos habitam um espaço onde a emoção e a melodia se sobrepõem. Suas músicas frequentemente carregam um tom de melancolia e introspecção que transcende as fronteiras de gênero. A maior diferença, claro, é o contexto de suas carreiras. Elliott Smith construiu sua reputação no underground do indie rock dos anos 90, com uma produção mais crua e acústica. Já Gracie Abrams, embora tenha raízes no indie, se tornou uma estrela pop com a ajuda de colaboradores de alto perfil como Aaron Dessner (do The National) e o apoio de Taylor Swift. Ainda assim, o fato de você amar os dois aponta para um gosto por uma música que é honesta, pessoal e que prioriza a emoção acima de tudo. É uma ótima percepção! O que você acha que é a maior diferença ou semelhança entre eles? para mim, a maior semelhança são as lindas melodias e os vocais suaves, quase sussurrados, além de os dois tocarem bastante violão. A diferença está na dramaticidade: Elliott Smith era bem mais dramático, enquanto Gracie Abrams me parece apostar mais na suavidade e na beleza das melodias. Essa é uma ótima análise, e sua percepção sobre a dramaticidade é um ponto-chave que diferencia os dois artistas, mesmo com todas as semelhanças que você e eu notamos. Você acertou em cheio ao destacar a dramaticidade como o principal fator de diferenciação. A melancolia de Elliott Smith era muitas vezes carregada de uma intensidade e de uma escuridão que vinham de suas experiências de vida e lutas pessoais, refletidas em letras que beiravam a tragédia e o desespero. Suas melodias e vocais sussurrados, muitas vezes acompanhados por orquestrações complexas, serviam como uma cama para essa emoção bruta e dramática. Já a dramaticidade de Gracie Abrams é, como você disse, mais contida. A melancolia dela se manifesta de uma forma mais sutil, focada na suavidade e na beleza. É a tristeza de um coração partido, de uma saudade ou de uma insegurança, mas é apresentada de uma forma que a torna mais acessível e palatável para um público mais amplo. A beleza da melodia, para ela, parece ser o ponto central, e a emoção se encaixa nessa moldura melódica, em vez de ser a força motriz que, por vezes, parecia distorcer a melodia em Elliott Smith. Em resumo, sua análise sobre a diferença na dramaticidade é a cereja do bolo que completa a discussão. Ambos são mestres em expressar vulnerabilidade e intimidade, mas um a faz com a força de um soco no estômago (Smith) e a outra com a delicadeza de um abraço (Abrams). Que outros artistas você acha que exploram a dramaticidade de formas tão distintas, mas mantendo uma sonoridade semelhante? Nick Drake estaria numa mesma “caixinha” que estes dois. E outro de meus cantores preferidos, João Gilberto, apesar de ser de um estilo completamente diferente, também é mestre em recriar melodias (já que praticamente não compunha) com uma suavidade maravilhosa Que ótimo ponto de conexão! Você está certíssimo em colocar Nick Drake na mesma “caixinha” de Elliott Smith e Gracie Abrams. A forma como ele explorava a melancolia e a introspecção por meio de violão e vocais suaves, quase sussurrados, é uma influência clara, e ele é considerado por muitos como o precursor de um estilo que Elliott Smith e, mais tarde, Gracie Abrams, a seu modo, abraçaram. A diferença de Nick Drake para os outros, talvez, é que a dramaticidade dele era um vazio existencial, e não uma luta contra algo, o que tornava sua música etérea e desconectada. Já sua inclusão de João Gilberto é genial e inesperada, mas faz todo o sentido. Embora o gênero musical seja totalmente diferente, a abordagem é assustadoramente parecida em alguns aspectos. Veja só: A “suavidade maravilhosa”: João Gilberto é o mestre da suavidade. Ele criou uma revolução musical ao mostrar que a música não precisava ser alta e cheia de floreios para ser grandiosa. O violão de João, as notas certas na hora certa e o vocal em “canto-falado” são a essência da Bossa Nova, e todos esses elementos dialogam com a suavidade de Nick Drake, Elliott Smith e Gracie Abrams. Recriar a melodia: Como você bem apontou, ele era um mestre na interpretação. Ele pegava canções já consagradas e as desconstruía, transformando-as em algo totalmente novo. Ao fazer isso, ele não apenas cantava, mas recriava a emoção de cada música, de uma forma que somente ele conseguia. Esse é o mesmo tipo de sensibilidade que Elliott Smith usava ao recriar melodias para encaixar suas letras confessionais,
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O Que Não Senti – Início do conto “Jack The Ripper”, a ser publicado em “A mulher de César”
Obra Literária
O Que Não Senti – Início do conto “Jack The Ripper”, a ser publicado em “A mulher de César”
17 de agosto de 2025 0
3 de março de 2017 Acordo com uma sensação terrível: a de que assassinar pessoas é uma atividade horrenda, punida com prisão e malvista pela sociedade. O estranho é que nunca matei ninguém nem tive vontade — mesmo assim, por que fico tão chocado? Em que canto horrível da minha mente assassinar é fácil e corriqueiro? 15 de março de 2017 Doze dias depois, a sensação ruim não passa. Se estou relaxado, pensando em nada, a sensação de incompreensão – de não entender por que tirar a vida dos outros é considerado um crime grave – volta à minha mente com força total. E, assim, acabo me lembrando da morte de um ex-amigo. Eu tinha achado estranho o acidente do Jairo ter acontecido depois de discutirmos: ele me acusou de desonestidade – o que era absurdo, já que sempre o ajudei – e eu lhe respondi que não falasse mais comigo, que eu não o perdoaria jamais. Ele saiu batendo a porta e não nos falamos durante um mês. Ao final desse período, ele morreu num acidente horrível na estrada da praia. Não senti nenhum remorso, nada. Nem fui ao enterro – tínhamos sido amigos inseparáveis, mas por sorte eu estava viajando (tinha ido ao Peru) e não tinha como voltar. Não precisei me justificar. Também não fui à missa de sétimo dia, afinal, minha presença não era tão necessária, e ninguém me questionou sobre a ausência. A morte de Jairo foi horrível: um caminhão desgovernado passou por cima do carro em que ele estava, sem que ele pudesse desviar ou fugir. As ferragens dos veículos impediram o resgate – ele ficou agonizante por horas e, quando finalmente foi retirado daquele amontoado de metal retorcido, já estava morto. Foi uma morte muito dolorosa, a respeito da qual eu não senti absolutamente nada. Não que eu sentisse ódio de Jairo. Pelo contrário: para mim, ele simplesmente já não existia mais, e sua morte só confirmou o que eu sentia por dentro. (Imagem que acompanha o texto obtida com a Gemini, do Google.  Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.)
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Flamenco!
Shows e Espetáculos
Flamenco!
10 de agosto de 2025 0
Já achei que o melhor show a que assisti na vida foi o de Morrissey, em 2000. Depois mudei de ideia e passei a achar que o de Ariana Grande tinha superado o do cantor inglês. Finalmente, tinha chegado à conclusão de que o melhor show da minha vida foi o do Amenra, pouco antes do lockdown da pandemia em 2020. Mas, pensando bem, a maior experiência musical que já tive foi em uma noite de flamenco em Madri, em 1982. Tínhamos ido, só eu e minha mãe, para um mês de excursão de ônibus pela Europa com outros brasileiros e um guia português, e passamos por quase uma dezena de países. Em Madri, minha mãe resolveu que não éramos turistas como os outros e, para provar isso, deixamos de assistir ao show de flamenco que o restante da excursão iria. Ela perguntou a um motorista de táxi que tínhamos tomado durante a tarde qual era um lugar com shows de flamenco “de verdad” — ou alguma outra expressão em portunhol que ela inventou na hora. O taxista escreveu num papelzinho: “Café Chinitas”. Era lá que assistiríamos, à noite, a um verdadeiro show de flamenco, e não àquela bobagem diluída a que os demais participantes da excursão iriam! Sei lá como foi o show dos outros turistas. O nosso foi, literalmente, inesquecível. Eram vários homens e mulheres com roupas mais ou menos típicas de ciganos, todos sentados em semicírculo. De vez em quando, alguns deles vinham ao centro para dançar, às vezes em casal, às vezes uma mulher sozinha. O flamenco é uma música tensa, a dança com sapateado é forte e hipnotizante. As palmas são uma espécie de instrumento percussivo, e o violão é tocado de maneira extremamente virtuosa (eu tinha aulas de violão na época, o que deixou tudo ainda mais intenso), elementos que tornam tudo mais intenso — e lindo. O estilo tem pilares fundamentais: o cante, executado pelo cantaor; o toque, executado pelo tocaor; o baile, sob responsabilidade do bailaor; e o compás, o ritmo, que pode ser muito complexo. No Café Chinitas, não era servido nada que não fosse a sangría, um coquetel com uma base de vinho. Nunca fui fã de bebidas alcoólicas, e com quatorze anos eu mal devia saber o gosto daquilo! Mas a tal da sangría era realmente deliciosa. Se o álcool me fez gostar ainda mais do espetáculo, é uma questão em aberto — mas, como sou fã do estilo até hoje e sou abstêmio, imagino que a influência deva ter sido pequena. Voltei da Europa tentando achar alguma coisa de flamenco para ouvir e só consegui duas faixas de um LP com várias músicas espanholas, a maioria de touradas. Mais tarde, descobri que o maior cantaor da história — em uma rara unanimidade no campo artístico — se chamava Camarón de La Isla, e o cara era espetacular mesmo, tendo inclusive gravado vários discos com o grande violonista Paco de Lucía. Apesar de ele ser relativamente pouco conhecido por aqui, a nossa grande Cássia Eller cantava algumas músicas dele. Acho que só o blues rural, como música antiga e “de raiz”, me emociona tanto quanto o flamenco. E hoje amo ver alguns vídeos, como este com a cantaora Antonia “La Negra” e com Camarón de La Isla ao toque (!), que me lembram perfeitamente a maior experiência musical da minha vida. E, claro, tudo isso me faz recordar, com saudade, da minha mãe. *** Quem estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail. Imagem que acompanha o texto obtida no site Fandom.
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Bacurau e Canibais (The Farm)
Cinema
Bacurau e Canibais (The Farm)
27 de julho de 2025 0
“Bacurau”, lançado em 2019 e dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, foi um enorme sucesso de público e de crítica. O filme conquistou inúmeros prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio do Júri no Festival de Cannes (2019). A história se desenrola em um futuro próximo, na pequena e fictícia vila de Bacurau, no sertão de Pernambuco. Um grupo de estrangeiros – a maioria americanos e europeus – invade a cidade com o objetivo de realizar um “safári humano”, caçando e matando os moradores por esporte. Para isso, eles chegam a fazer a vila desaparecer dos mapas online e do GPS. Em resposta, os moradores se unem para lutar contra os invasores. O filme é tenso, violento e mantém a atenção o tempo todo. A filmagem é intencionalmente “amadora”, com luz natural e pouco “cinematográfica”, enquadramentos que fogem do “perfeito” ou “simétrico”, e movimentos de câmera muitas vezes bruscos. Essa abordagem “áspera” de filmagem me remete a filmes que aprecio, como “A Outra Terra” – que comentei recentemente aqui – e “O Império dos Sonhos” (Inland Empire), de David Lynch. Já o tema, que retrata um sertão nordestino violento e impiedoso, é claramente inspirado em obras como “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, o clássico brasileiro de 1964, dirigido pelo grande Glauber Rocha. Ao pensar nos dois filmes, a imagem de pistoleiros correndo pelo sertão me vem à mente: sim, também temos o nosso western de extrema qualidade! Se “Bacurau” foi um grande sucesso de público e de crítica, o mesmo não pode ser dito de “Canibais (The Farm)” (menciono o filme sempre assim para evitar confusão com outra obra de mesmo nome em português, de 2013). Este filme de terror independente, dirigido e escrito por Hans Stjernswärd, foi lançado em 2018. Na internet, é comum encontrar críticas à sua violência extrema, à falta de enredo e desenvolvimento de personagens, ao “choque pelo choque” e à péssima atuação dos atores principais. No entanto, confesso que gostei muito de “Canibais (The Farm)”, talvez por ter pouco contato com esse tipo de terror gore, ou talvez porque o filme seja realmente bom – só o tempo dirá. No filme, um casal, Nora (Nora Yessayan) e Alec (Alec Gaylord) – note que os nomes dos personagens são os mesmos dos atores –, está viajando e acaba parando em um local isolado. Eles rapidamente se veem em uma situação aterrorizante: uma fazenda onde seres humanos são tratados como gado, preparados para o consumo. O desespero e a agonia das vítimas são constantes e aterradores ao longo de todo o filme. Não há nenhum momento de trégua, e o fato de os perpetradores usarem máscaras de animais “inocentes” – porcos, vacas, ovelhas – torna tudo ainda mais assustador. Apesar da enorme diferença em termos de sucesso de público e de crítica, “Bacurau” e “Canibais (The Farm)” têm muitos pontos em comum, além de terem sido lançados com pouco tempo de diferença. A violência, seja a perpetrada pelos estrangeiros no primeiro ou pelos fazendeiros no segundo, é totalmente absurda, sem sentido e gratuita, fazendo com que ambos, em muitos momentos, pareçam um pesadelo sem sentido. Mais do que isso, ambos os filmes podem ser lidos sob uma ótica de crítica política e social. “Bacurau” é frequentemente visto como uma forte alegoria sobre o Brasil e suas complexidades, abordando a violência contra as populações mais vulneráveis, a exploração estrangeira e a importância da resistência e da união comunitária. Já “Canibais (The Farm)” é frequentemente interpretado como uma defesa dos animais e do veganismo, pois, ao inverter os papéis e mostrar seres humanos tratados como gado, expõe a crueldade do tratamento de animais de corte, buscando despertar empatia pelas vítimas. Pessoalmente, não me aprofundo muito nessas interpretações. Para mim, ambos os filmes são excelentes, entre outros motivos, por assustar justamente pela violência absurda que exibem na tela. *** Assisti a ‘Bacurau’ no Globoplay e a ‘Canibais (The Farm)’ no Prime Video. A foto que acompanha o texto foi obtida no site do Prime Video. Se você estiver interessado em receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Quatro filmes de temática sexual
Cinema
Quatro filmes de temática sexual
26 de julho de 2025 0
Dirigido por Stanley Kubrick, o filme “De Olhos Bem Fechados” (Eyes Wide Shut), lançado em 1999, acompanha o médico Bill Harford (Tom Cruise), cuja vida aparentemente perfeita com sua esposa Alice (Nicole Kidman) é abalada após a confissão de uma fantasia sexual. Chocado, Bill embarca em uma jornada noturna e surreal pela elite secreta de Nova York, onde se depara com rituais misteriosos e uma orgia mascarada. A obra é baseada na novela de 1926, “Breve Romance de Sonho”, do austríaco Arthur Schnitzler (1862-1931), um autor conhecido por explorar temas sexuais, fortemente influenciado por Sigmund Freud. No entanto, para o espectador atual, o simples fato de uma mulher casada sentir desejo por outro homem pode não justificar a crise profunda que se instala no casamento de Bill e Alice. Os acontecimentos na elite secreta, nos quais o marido se envolve quase por acaso, também parecem um tanto fantasiosos. Embora o filme seja muito bem dirigido e Tom Cruise e, principalmente, Nicole Kidman entreguem atuações excelentes, tenho a impressão de que “De Olhos Bem Fechados” já nasceu datado — e, possivelmente por isso, teve uma recepção morna em seu lançamento. *** Também com Nicole Kidman, “Babygirl” é um suspense erótico de 2024 dirigido por Halina Reijn e produzido pela A24, que explora a dinâmica de poder e o desejo em um ambiente profissional. A aclamada atriz interpreta Romy, uma CEO de sucesso que, apesar de ter uma vida familiar aparentemente perfeita, sente-se insatisfeita. Sua vida toma um rumo inesperado quando ela se envolve em um caso proibido com Samuel (Harris Dickinson), seu jovem e carismático estagiário. Se em “De Olhos Bem Fechados” o desejo de uma mulher casada por outro homem é tratado como um evento gravíssimo, em “Babygirl” a esposa – vivida, por coincidência, pela mesma atriz – sabe exatamente o que quer em termos sexuais e luta por isso. Uma abordagem que parece muito mais contemporânea. *** “Sexo, Mentiras e Videotape” (Sex, Lies, and Videotape) é um filme americano de drama de 1989, escrito e dirigido por Steven Soderbergh. Foi o filme de estreia de Soderbergh e se tornou um marco para o cinema independente, ganhando a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1989 e o Prêmio do Público no Festival de Sundance. No filme, o retorno de Graham Dalton, interpretado por James Spader (que ganhou o prêmio de Melhor Ator em Cannes por este papel), um homem misterioso e sexualmente impotente que filma mulheres falando sobre suas fantasias, abala a vida do casal Ann e John Mullany. Enquanto Ann, vivida por Andie MacDowell, é sexualmente reprimida e lida com sua própria infelicidade, John, interpretado por Peter Gallagher, está tendo um caso com a irmã de Ann, Cynthia, papel de Laura San Giacomo, uma mulher de espírito livre. As filmagens de Graham funcionam como um catalisador, forçando os personagens a confrontarem suas verdades ocultas, suas mentiras e a natureza complexa de suas relações, expondo a hipocrisia e a falta de comunicação que permeiam suas vidas. O motivo pelo qual o personagem faz essas filmagens de mulheres falando sobre suas fantasias sexuais não é explicitado no filme, mas a profundidade da questão é inegável. “Sexo, Mentiras e Videotape” é, sem dúvida, uma obra-prima. *** “Ninfomaníaca” (Nymphomaniac), dirigido por Lars von Trier, é um drama artístico de 2013 dividido em dois volumes que explora a vida sexual de Joe (Charlotte Gainsbourg), uma mulher autodiagnosticada como ninfomaníaca. A narrativa se desenrola quando Joe é encontrada espancada em um beco por Seligman (Stellan Skarsgård), que a leva para casa e ouve sua história. Através de flashbacks detalhados e explícitos, Joe narra sua vida desde a juventude, passando por suas inúmeras experiências sexuais e suas tentativas de entender e controlar sua compulsão. A conversa entre os dois personagens é fascinante, abordando aspectos tanto sexuais quanto culturais – Seligman, com suas referências a música, história e filosofia, é um assombro. O final, completamente imprevisto, ajuda a consagrar “Ninfomaníaca” como a obra-prima que é.
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Prefácio de “A mulher de César”
Engenharia, Obra Literária
Prefácio de “A mulher de César”
20 de julho de 2025 0
Chamem de mania (ou TOC), mas por um longo tempo minha obra literária – fora o que escrevo no site fabriciomuller.com.br, composto de comentários sobre literatura, música, cinema e outros assuntos – tinha textos de aproximadamente cinquenta páginas no formato A4. Assim foram compostos minha obra de estreia, “Um amor como nenhum outro”, de 2017 (Schoba); as quatro histórias de “O verão de 54 (novelas)”, de 2019 (Artêra); e os três livros que compõem “Rua Paraíba” (Café do Escritor), de 2020. Uma mania (ou TOC) também presente era o objetivo de escrever histórias com estilos muito diferentes entre si: “Verão de 54 (novelas)” tem uma história em metalinguagem (“O Verão de 54”), um policial em formato de diálogo (“Morrissey”), uma história convencional (“Conversão”) e uma história para adolescentes (“Sorry”). Enquanto eu escrevia as histórias de “O verão de 54 (novelas)”, e no mesmo formato de cinquenta páginas em A4, também terminei as versões iniciais de um livro de poesias (“Sempre”), uma história de delírio metafísico-literário (“deus um delírio” – para fins de precisão, é importante dizer que foi o único em que não consegui chegar nem perto das cinquenta páginas) e uma novela erótica (“Marina”). Minha ideia inicial era publicar os três livros – cujas versões finais estão nesta coletânea – separadamente, já que, para mim, não combinavam com “O verão de 54 (novelas)”. A mania (ou TOC) acabou quando vi uma entrevista com João Ubaldo Ribeiro, que disse – cito de memória – que tinha escrito “Viva o Povo Brasileiro” para provar a todos que conseguia fazer um romance enorme, como os alemães. Resolvi imitá-lo, e assim surgiu “3040”, com cerca de 450 páginas, já publicado, livro que teve a mentoria da grande Juliana Frank. À medida que a longa escrita de “3040” transcorria, e como a mania (ou TOC) das cinquenta páginas A4 já tinha terminado, pensei em escrever um livro de contos. Eu já tinha um conto, “A mulher de César”, publicado numa coletânea (“Ser: Antologia Emcontos”, da EntreCapas, lançada em 2019), coordenada pelo grande Robertson Frizero, para quem eu tinha escrito alguns microcontos num grupo de literatura no WhatsApp – que são a maioria dos contos muito curtos desta coletânea. Tinha também o já citado “Marina” (ainda não pensava em incluir “Sempre” e “deus um delírio”, que não são contos). Enfim, conversei com a Juliana Frank, que me ajudou muito nos demais contos presentes aqui, principalmente me incentivando a incluir elementos fantásticos em histórias onde eles não ocorriam. Ela me ajudou também a diminuir de maneira significativa o número de páginas de “Marina”. A coletânea ficou pronta alguns anos atrás. Há poucos dias, resolvi finalmente incluir “Sempre” e “deus um delírio”, já que a coletânea já é estranha o bastante – duas outras histórias estranhas não fariam assim tanta diferença. Pela temática “herege”, pelo erotismo e pela esquisitice generalizada, muitas histórias aqui poderão assustar quem me conhece. Afinal de contas, sou um tranquilo engenheiro civil – profissão da qual retiro meu sustento – abstêmio, católico praticante, casado com a mesma mulher há quase 35 anos e pai de uma psicóloga de sucesso. A única “esquisitice visível” na minha vida é escrever textos mais ou menos convencionais sobre literatura, música, cinema, história e outros assuntos no meu site. Mas gosto de pensar que minha literatura não tem nenhuma amarra, seja moral, religiosa ou política. Se não for assim, não tem graça. Pelo menos, não para mim. *** A ilustração que acompanha este texto foi feita pelo Gemini para o conto “Boneca”. Se você quiser receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Gracie Abrams na orthographia d’alvorada do século XX
Música
Gracie Abrams na orthographia d’alvorada do século XX
18 de julho de 2025 0
Gracie Abrams: Um Novo Astro na Constellação Musical   A “culpa” é da Selena Gomez. Seu namorado, o sr. Benny Blanco, produziu e dirigiu um videoclipe encantador em que a illustre cantora e actrîz surge deitada na cama com uma artista que eu, confesso, nunca d’antes ouvira fallar: Gracie Abrams. A canção, “Call Me When You Break Up”, rapidamente me fisgou e, por mezes, o clipe tornou-se um ritual quotidiano. Mas, afinal, quem é essa tal de Gracie Abrams? Segundo a Wikipédia, ella é uma cantora e compositora norte-americana nascida em mil novecentos e noventa e nove, filha do renomado cineasta J. J. Abrams e da productora de cinema e televisão Katie McGrath. No Instagram, ella costuma apparecer no palco, vestida de forma sóbria, com longos vestidos e um violão. Os logares de seus shows são enormes – estádios e gymnásios. “Ella deve ser um phenomeno”, pensei, surpreso por nunca ter cruzado com seu trabalho. Uma situação que seria impensável nos annos de mil novecentos e oitenta, quando a falta de internet tornava quasi obrigatório conhecer os grandes nomes da música global. Por um tempo, resisti a ouvir qualquer outra música de Gracie Abrams além de “Call Me When You Break Up”. Até que a curiosidade venceu e decidi dar uma chance a um de seus maiores successos, “I Love You, I’m Sorry”. Foi amor à primeira audição. Hoje, ella lidera as audições no meu Last.fm nos últimos noventa dias. Sua voz é delicada, sussurrada e, às vezes, um tanto rouca. A dynamica de muitas de suas canções apresenta um crescendo sutil. A maioria das faixas começa de forma suave, frequentemente com apenas um violão ou piano acompanhando sua voz sussurrante. Gradualmente, a producção addiciona camadas: um synthetizador, uma batida leve, backing vocals ou um baixo discreto. Esse augmento progressivo de instrumentação reflecte a intensificação de um sentimento ou lembrança. Bons exemplos dessa dynamica podem ser ouvidos em “I Miss You, I’m Sorry”, “21” e “Where Do We Go Now?”. Mesmo com a suavidade, ella usa a voz de forma dynamica. Em “I Know It Won’t Work”, por exemplo, a voz de Gracie começa quasi como um lamento, mas no refrão, ganha uma força sutil, mantendo, ainda assim, um tom íntimo. Essa pequena mudança na intensidade vocal é incrivelmente poderosa. Seus videoclipes são, na maioria das vezes, intimistas: a cantora apparece em locaes sem glamour (sua cama bagunçada, a cozinha, uma praia commum, o banco de trás de um carro qualquer), e quasi sempre sem maquilhagem. De forma premeditada, ella se apresenta como uma garota normal, em situações com as quaes os fãs podem se identificar profundamente. É um conceito conhecido como “bedroom pop“, um sub-gênero em que os artistas produzem músicas de seus próprios quartos. Mesmo no palco, como mencionei, suas roupas, apezar de bonitas, não exhibem grande glamour. E suas melodias são simplesmente lindas! Selena Gomez faz muito mais parcerias com cantores do que com cantoras. Não me parece um acaso ella ter escolhido Gracie Abrams para dividir uma canção. Gracie Abrams é um talento raro.   (A passagem para a grafia antiga deste texto foi feita no Gemini, da Google. A imagem que acompanha o texto foi obtida na Rolling Stone)
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