O que a música faz com a gente: Prince com o peito de fora, sintetizadores pesados e a neurociência de uma viagem mental
Música
O que a música faz com a gente: Prince com o peito de fora, sintetizadores pesados e a neurociência de uma viagem mental
23 de agosto de 2026 0
1) Os vídeos e a música de Prince Às vezes gosto de ver no YouTube alguns clipes do cantor Prince (1958-2016). É impressionante como o visual é brega: ombreiras; danças eróticas com ele e uma trupe de dançarinos, dançarinas e músicos; roupas coloridas, cabelos cheios de laquê; botas fora de moda; o cantor com um bigode que já nos anos 1980 era ridículo, sem contar os ternos coloridos com o peito desnudo. Tão feio quanto divertido aos olhos de hoje – mas, convenhamos, nos anos 1980 e 1990 o visual já era brega. Mas as músicas, minha gente! Mountains, Kiss, U Got The Look, Gett Off, When Doves Cry, 1999, Little Red Corvette, Alphabet St., Sign O’The Times, Diamonds and Pearls, Let’s Go Crazy, I Wanna Be Your Lover, Musicology, It’s Gonna Be A Beautiful Night – citei essas meio aleatoriamente, de uma lista que o YouTube fez para mim. Batidas matadoras, ritmos deliciosos, vocais – graves e agudos – maravilhosos, execuções brilhantes. Prince tem pelo menos quarenta ou cinquenta canções absolutamente perfeitas. Provavelmente dê para contar nos dedos os músicos pop que vão ser ouvidos daqui a duzentos anos, se a humanidade ainda existir – e, certamente, Prince estará entre eles. E ainda vão existir os vídeos ridículos dele para as pessoas do futuro se divertirem. Se o Prince me ancora no corpo, no ritmo e no absurdo visual dos anos 80, há outras canções que fazem exatamente o oposto: me arrancam do chão e me jogam para outra dimensão. 2) Frequências que arrancam a mente do chão Existem outras dimensões fora das três espaciais e a temporal a que estamos acostumados? As viagens astrais existem de fato? É possível, com meditação ou uso de substâncias, atingir estes locais metafísicos? São questões que fazem parte da história da humanidade desde que o mundo é mundo. Este assunto sempre me vem à mente quando escuto algumas canções específicas: o que eu sinto quando as ouço é algo estranho, indefinível e bonito ao mesmo tempo. É como se estivesse indo para outro lugar, quase que uma lembrança de algo maravilhoso que eu não vivi. Como nunca cheguei a experimentar drogas ilegais e não gosto de álcool, fico me perguntando se uma viagem de drogas é parecida com isso. Jamais saberei. As músicas são essas, e coloco aqui sem ordem de preferência, com os títulos que estão nos vídeos do YouTube, linkados também: Diplo – Color Blind (feat. Lil Xan): “Eu sou tão daltônico”, canta Lil Xan, aparentemente chapado, esperando Diplo destruir tudo com uma sequência matadora de acordes. DJ Snake – Let Me Love You (feat. Justin Bieber): Tudo bem que Justin Bieber faz um tremendo sucesso, mas este vídeo está com dois bilhões de visualizações! A voz dele é etérea como a de Aluna Francis, que canta nas duas próximas faixas. Jack Ü (Skrillex & Diplo) – To Ü (feat. AlunaGeorge): Gosto tanto desta maravilha que já a coloquei em outro texto anterior como uma das preferidas da minha vida. DJ Snake, AlunaGeorge – You Know You Like It: O clipe é esquisitíssimo, com um macaco traficante e perdido, mas quando a voz etérea de Aluna (do duo AlunaGeorge) começa a cantar “You know you like it but it drives you insane” eu simplesmente não sei o que fazer. Bones – CtrlAltDelete: A melhor faixa de Bones, na opinião de muita gente. A cada vez que escuto esta música, penso de verdade que esta é a melhor faixa já produzida na história da humanidade, e francamente não sei se estou exagerando. Enfim, o que sinto quando escuto estas cinco músicas é tão estranho que resolvi perguntar para o Gemini se estava ficando maluco. A resposta dele: “O que você está descrevendo é um fenômeno humano incrivelmente comum, profundo e amplamente estudado pela neurociência e pela psicologia da música. Você não precisa de nenhuma substância para vivenciar estados alterados de consciência ou essa sensação de ‘transportação’. De certa forma, enquanto as drogas tentam simular estados de alteração de consciência de forma química e desordenada, a arte e a música fazem isso de forma orgânica, precisa e segura. O fato de você ter um grupo seleto de músicas que ativam essa ‘chave’ no seu cérebro mostra uma sensibilidade neurológica e emocional muito bonita à estrutura musical, aos timbres e às frequências. É o seu próprio cérebro criando uma ponte entre o som e uma experiência profunda de evasão.” Não sou maluco, enfim — mas isso é meio sem graça, né? Imagem obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Quando o Cérebro Reescreve o Mundo
Ciência, Obra Literária
Quando o Cérebro Reescreve o Mundo
16 de agosto de 2026 0
Em janeiro de 1999, o Dr. Oliver Sacks recebeu a seguinte carta: “Meu problema (muito incomum), em uma frase e em termos leigos, é: não consigo ler. Não consigo ler música nem qualquer outra coisa. No consultório do oftalmologista, posso ler individualmente todas as letras da tabela optométrica até a última linha. Mas não sou capaz de ler palavras, e para ler música tenho o mesmo problema. Venho lutando com isso há anos, procurei os melhores médicos e nenhum foi capaz de ajudar. Eu ficaria imensamente feliz e grata se o senhor pudesse marcar-me uma consulta.” A autora da carta, Lilian Kallir, era uma pianista profissional que simplesmente não conseguia mais ler, fossem letras ou partituras. Continuou se apresentando com as músicas que sabia de cor. Já Patricia H. era a dona de uma galeria de arte que perdeu a capacidade de se comunicar com palavras depois de um acidente vascular cerebral: “Pat (…) reconhecia as filhas, tinha noção de seu problema e de onde ela estava. Tinha seus apetites e desejos, sua personalidade, mas estava paralisada do lado direito e, o que era mais grave, não conseguia mais expressar seus pensamentos e sentimentos em palavras. Podia apenas olhar e fazer mímica, apontar ou gesticular. Sua compreensão da fala também estava muito prejudicada. Em resumo: estava afásica. ‘Afasia’ significa etimologicamente perda da fala, mas não é a fala propriamente dita que se perde, e sim a linguagem: sua expressão ou sua compreensão, total ou parcialmente.” Já em janeiro de 2002, o Dr. Oliver Sacks recebeu uma carta de Howard Engel, escritor canadense conhecido pela série de histórias do detetive Benny Cooperman, em que descrevia um estranho problema. Contou que alguns meses antes acordou certa manhã sentindo-se bem, vestiu-se, preparou o desjejum e foi até a varanda pegar o jornal. Mas o jornal ao pé da porta parecia ter sofrido uma transformação impressionante: “O Globe and Mail de 31 de julho de 2001 parecia o mesmo de sempre, na composição, nas ilustrações, nos cabeçalhos e nas legendas menores. A única diferença era que eu não conseguia mais ler o que estava escrito ali. Eu podia ver que as letras que o compunham eram as 26 letras do alfabeto inglês com as quais eu estava habituado. Só que agora, quando eu as focalizava, ora pareciam cirílico, ora coreano. Seria uma versão servo-croata do meu jornal, feita para exportação? (…) ‘Já que não é alguém fazendo uma brincadeira, só posso ter sofrido um derrame’.” O mesmo Dr. Oliver Sacks tinha seus problemas neurológicos: “Desde que me conheço por gente, tenho dificuldade para reconhecer rostos. Quando criança não me preocupava muito com isso, mas na adolescência, em um colégio novo, sofri muitos constrangimentos. Minha frequente incapacidade de reconhecer os colegas deixava-os pasmos, às vezes indignados. Não lhes ocorria (e por que deveria?) que eu tinha uma deficiência perceptual.” O caso de Oliver Sacks nem era tão grave comparado com o de um engenheiro de mina de carvão galesa, que passou a ter os seguintes sintomas depois de um derrame: “Não consigo reconhecer pessoas em fotografias, nem a mim mesmo. No clube, vi um estranho me encarando e perguntei a um funcionário quem era. Você vai rir de mim: era eu mesmo, olhando no espelho. […] Tempos depois fui a Londres e estive em vários cinemas e teatros. Não entendi coisa alguma dos enredos. Nunca sabia quem era quem. […] Comprei alguns exemplares [das revistas] Men Only e London Opinion. Não pude apreciar as fotografias, como antes. Eu era capaz de decifrar os assuntos pelos detalhes, mas assim não tinha graça. É preciso entender tudo de relance.” Os trechos acima foram retirados de O Olhar da Mente, de Oliver Sacks (Companhia das Letras, 264 páginas, traduzido por Laura Teixeira Motta, ano de publicação original: 2010), livro do famoso médico e neurologista britânico que se popularizou contando casos clínicos de seus pacientes. Outros assuntos englobados no livro são a falta de visão estereoscópica (visão que permite ao cérebro enxergar em três dimensões) e como o cérebro de uma pessoa cega “vê”, mentalmente, objetos e ambientes reais. O meu interesse maior na leitura deste livro foi a pesquisa para o romance que estou escrevendo, “Não tenho medo do escuro”, que trata de um programador de computadores que perde a visão. Mas, a princípio, a leitura não me ajudou muito: tanto cegos de nascença quanto aqueles que perderam a visão ao longo da vida imaginam o mundo de maneiras muito distintas. Existem desde aqueles que não conseguem “ver mentalmente” nada — com o cérebro basicamente processando apenas a linguagem —, até aqueles que “enxergam” com enorme precisão objetos, proporções, pessoas e cores. Mas, pensando bem, o livro até que me ajudou bastante: meu personagem pode estar em qualquer ponto entre esses dois extremos! Imagem obtida no Google Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.    
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Histórias como Escudo: Uma Resenha de As 100 Noites de Hero
Literatura
Histórias como Escudo: Uma Resenha de As 100 Noites de Hero
12 de agosto de 2026 0
Dois homens fazem uma aposta: Jerome vai passar 100 dias fora de casa, e Manfred aposta que consegue seduzir a esposa dele, chamada Cherry, em algum dia durante a ausência do outro. Se Manfred tiver sucesso, ganha o castelo do amigo. Se não conseguir, perde a própria vida. Cherry não quer saber de fazer sexo com Manfred, já que ela gosta mesmo de sua secretária e companheira, Hero. Para ganhar tempo, Hero começa a contar histórias para o conquistador que, fascinado com elas e achando que tem tempo de sobra para cumprir a aposta, vai deixando a conquista de Cherry sempre para o dia seguinte, para o dia seguinte, para o dia seguinte… É esta história claramente baseada nas Mil e Uma Noites que é o pano de fundo para a HQ “As 100 noites de Hero”, de Isabel Greenberg (Quadrinhos na Cia., 224 páginas, traduzido por Érico Assis, ano de publicação original: 2016). O livro alcançou grande repercussão de crítica, figurando na seleção feminista Rise da American Library Association e entre os melhores lançamentos do ano pelo jornal britânico The Guardian, além de ter inspirado uma adaptação cinematográfica em 2025. As diversas histórias da HQ ganham vida nos quadrinhos de “As 100 noites de Hero”, de cunho mitológico e fortemente feminista: as irmãs que leem livros, apesar da proibição no reino em que moram; uma jovem que se transforma em pássaro para fugir da obsessão do homem poderoso; as rainhas que governam – e bem – um reino, mas em segredo, enquanto os homens levam os créditos; e até uma bela lenda sobre a Lua. As histórias são extremamente bem contadas e chamam a atenção, e o traço de Isabel Greenberg é extremamente marcante, com muito preto e pouca variação de cores. Mas o tom geral do livro poderia ser um pouco menos maniqueísta. *** Imagem obtida no Gemini.
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Erma Jaguar: Traços Elegantes, Histórias Estapafúrdias
Literatura
Erma Jaguar: Traços Elegantes, Histórias Estapafúrdias
12 de agosto de 2026 0
Erma Jaguar é uma mulher misteriosa, de sexualidade agressiva e às vezes bastante irresponsável. Ela tem aventuras sexuais com desconhecidos de todas as classes sociais, aparências e idades. Secundada por sua funcionária Charlotte e por uma mulher muito parecida com a atriz pornô Cicciolina, é sempre difícil imaginar qual será o próximo passo desta mulher insaciável, linda e esquisita. Erma Jaguar é a personagem que dá título a uma célebre HQ do quadrinista francês Alex Varenne, lançada originalmente em três volumes entre 1988 e 1992 – reunidos em uma edição única pela L&PM em 2012, com tradução de Alexandre Boide (150 páginas). Às vezes é meio difícil saber o que está acontecendo nas histórias, tantos são os acontecimentos estapafúrdios que ocorrem a todo o momento – lá pelas tantas, sem nenhum motivo aparente, ela chega a decepar o pênis de um rapaz bem bonito. Além disso, muitas vezes as aventuras são apenas descrições dos sonhos de uma das personagens, ou simplesmente não se sabe quem está no comando de cada situação. De todo modo, nada diminui a extrema sensualidade e o forte traço em preto e branco de Alex Varenne: Erma Jaguar merece todo o sucesso que fez. *** Imagem obtida no Claude.
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Viagens sem substâncias: como a música cria portais na nossa mente – Um ensaio sobre a sensação de ir para outro lugar apenas com fones de ouvido.
Música
Viagens sem substâncias: como a música cria portais na nossa mente – Um ensaio sobre a sensação de ir para outro lugar apenas com fones de ouvido.
9 de agosto de 2026 0
Existem outras dimensões fora das três espaciais e a temporal a que estamos acostumados? As viagens astrais existem de fato? É possível, com meditação ou uso de substâncias, atingir estes locais metafísicos? São questões que fazem parte da história da humanidade desde que o mundo é mundo. Este assunto sempre me vem à mente quando escuto algumas canções específicas: o que eu sinto quando as ouço é algo estranho, indefinível e bonito ao mesmo tempo. É como se estivesse indo para outro lugar, quase que uma lembrança de algo maravilhoso que eu não vivi. Como nunca cheguei a experimentar drogas ilegais e não gosto de álcool, fico me perguntando se uma viagem de drogas é parecida com isso. Jamais saberei. As músicas são essas, e coloco aqui sem ordem de preferência, com os títulos que estão nos vídeos do YouTube, linkados também: Diplo – Color Blind (feat. Lil Xan): “Eu sou tão daltônico”, canta Lil Xan, aparentemente chapado, esperando Diplo destruir tudo com uma sequência matadora de acordes. DJ Snake – Let Me Love You (feat. Justin Bieber): Tudo bem que Justin Bieber faz um tremendo sucesso, mas este vídeo está com dois bilhões de visualizações! A voz dele é etérea como a de Aluna Francis, que canta nas duas próximas faixas. Jack Ü (Skrillex & Diplo) – To Ü (feat. AlunaGeorge): Gosto tanto desta maravilha que já a coloquei aqui como uma das preferidas da minha vida. DJ Snake, AlunaGeorge – You Know You Like It: O clipe é esquisitíssimo, com um macaco traficante e perdido, mas quando a voz etérea de Aluna (do duo AlunaGeorge) começa a cantar “You know you like it but it drives you insane” eu simplesmente não sei o que fazer. Bones – CtrlAltDelete: A melhor faixa de Bones, na opinião de muita gente. A cada vez que escuto esta música, penso de verdade que esta é a melhor faixa já produzida na história da humanidade, e francamente não sei se estou exagerando. Enfim, o que sinto quando escuto estas cinco músicas é tão estranho que resolvi perguntar para o Gemini se estava ficando maluco. A resposta dele: “O que você está descrevendo é um fenômeno humano incrivelmente comum, profundo e amplamente estudado pela neurociência e pela psicologia da música. Você não precisa de nenhuma substância para vivenciar estados alterados de consciência ou essa sensação de ‘transportação’. De certa forma, enquanto as drogas tentam simular estados de alteração de consciência de forma química e desordenada, a arte e a música fazem isso de forma orgânica, precisa e segura. O fato de você ter um grupo seleto de músicas que ativam essa ‘chave’ no seu cérebro mostra uma sensibilidade neurológica e emocional muito bonita à estrutura musical, aos timbres e às frequências. É o seu próprio cérebro criando uma ponte entre o som e uma experiência profunda de evasão.” Não sou maluco, enfim — mas isso é meio sem graça, né? Imagem gerada no ChatGPT.
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“Um Defeito de Cor”, de Ana Maria Gonçalves
Literatura
“Um Defeito de Cor”, de Ana Maria Gonçalves
9 de agosto de 2026 0
Escolhido pelo jornal Folha de S.Paulo como o melhor livro brasileiro de literatura do século XXI numa votação da crítica, “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves (Record, 952 páginas, ano de publicação original: 2006), é uma ficção histórica longa e extremamente detalhista. O livro impactante foi decisivo para que a autora fosse eleita recentemente para a Academia Brasileira de Letras. “Um defeito de cor” conta a história de Kehinde, uma mulher africana que é capturada aos oito anos de idade no Reino do Daomé (atual Benin) e trazida para a Bahia como escrava. A personagem seria inspirada na figura histórica de Luísa Mahin, que teria sido mãe do poeta e abolicionista Luís Gama (1830-1882), mas a própria autora reconhece que, como pouco se sabe sobre ela, quase tudo no livro é invenção — possível de ter ocorrido, mas ficção. Kehinde vivia com sua família na África, onde tinha uma vida marcada por tragédias — como a morte da mãe —, e acaba sendo levada com sua irmã como escrava para o Brasil quase que por acaso: elas estavam na rua, brincando, e foram pegas. Não houve nenhum planejamento dos captores para capturá-la, o que traz um grau a mais de choque para uma história terrível. Inicialmente ela vem para a Bahia e, entre grandes sofrimentos, engravida por estupro pelas mãos de seu dono fazendeiro. Mas muita coisa ainda faria parte da extremamente movimentada vida de Kehinde: filhos, riqueza e pobreza, casamentos, liberdade, mudanças (para o Rio de Janeiro e depois de volta para a África), revoltas — como a dos Malês, que eram escravos muçulmanos —, espiritualidade e amizades. O livro todo tem uma justificativa interna: Kehinde conta a história para alguém, mas estragaria a surpresa contar quem é. Com “Um defeito de cor”, a autora quer contar uma história completa sobre o período da escravidão no Brasil, tantos são os acontecimentos que perpassam a trajetória de Kehinde. Mais do que isso, ela apresenta todas as questões espirituais que podiam surgir para os escravos brasileiros, que tinham sua própria religião nativa, mas que precisavam se adaptar ao catolicismo dominante. Fascinante também é o contato dela com os escravos muçulmanos, normalmente alfabetizados e respeitosos com as mulheres. Sem dúvida nenhuma, “Um defeito de cor” é uma obra fascinante e que merece o sucesso que fez. Porém, o nível de detalhe com que a autora descreve diversos acontecimentos, por mais que acrescente camadas de compreensão à história, acaba sendo frequentemente irritante — ela mesma parece confessar isso algumas vezes, no final do livro. Ou foi apenas uma impressão minha, sei lá. *** Imagem criada pelo Claude Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail  
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De um show do Morrissey até as ruínas de Machu Picchu, a lógica torta de quem ama aviões, mas treme na escada.
Cinema, Viagem
De um show do Morrissey até as ruínas de Machu Picchu, a lógica torta de quem ama aviões, mas treme na escada.
2 de agosto de 2026 0
Tive dois ataques de pânico na minha vida, os dois pelo mesmo motivo: medo de altura. Sempre tive este medo, mas depois que quebrei a perna esquerda em 2004 passei a ter menos confiança nela, e o medo de cair sozinho de grandes alturas, que já era grande antes, passou a ser bem mais grave. Sou preciso quando digo que tenho medo de “cair sozinho”: se estou num lugar fechado e sem possibilidade de me precipitar de uma altura enorme, não tenho medo nenhum. Amo andar de avião, inclusive. O primeiro ataque de pânico foi num show do Morrissey em 2012 no Espaço das Américas, atual Espaço Unimed: foram lances de escada rolante cada vez mais altos até chegar na minha poltrona, no primeiro balcão. Para chegar até meu lugar eu tinha que passar diante de um parapeito baixíssimo, numa altura gigante – sei lá, uns trinta metros. Fiquei absolutamente paralisado na minha poltrona durante umas duas horas, com medo de fazer o mesmo percurso para voltar. Cheguei bem cedo, e o pânico terminou subitamente no meio do show do meu cantor preferido (sim, o espetáculo estava perfeito). O segundo ataque de pânico foi em Machu Picchu. A sequência do caminho entre a cidade de Cuzco e o local das antigas ruínas incas passava por uma estrada feita de van, um passeio de trem entre montanhas gigantescas e um caminho de ônibus que parece pertencer à série “Estradas Mortais”, do Discovery Channel. Chegando finalmente na entrada para entrar em Machu Picchu eu já estava com medo e enjoado (todo o caminho foi feito com janelas fechadas e sem vento no meu rosto, o que é terrível para mim). Mas nada tinha me preparado para o que eu senti nas ruínas incas: aqueles degraus de centenas de anos, desalinhados, alguns lugares com possibilidade de cair de cinco ou dez metros entre uma plataforma inca e outra, aquelas montanhas gigantescas em volta – tudo me fez ter o segundo ataque de pânico da minha vida. Os turistas tinham que andar em fila, não tinha como voltar no meio da pequena multidão, mas mesmo assim eu travei. E sim, comecei a falar palavras desconexas. Tenho testemunhas disso. Sim, foi um vexame histórico. Se tenho medo de cair de grandes alturas, filmes de terror não me dão medo nenhum, muito pelo contrário. O grande crítico de cinema Roberto Sadovsky comentou aqui que “Obsessão” é um filme que, “de fato, dá medo”. Já eu, que também amei o filme, comentei aqui que ele “é um prato cheio para fãs do estilo — mesmo aqueles que, como eu, gostam de filmes de terror para se divertir e não se assustam muito com eles”. E aqui estava eu, me achando muito corajoso para ver filmes em geral. Até que ontem resolvi ter a feliz ideia de assistir a um filme chamado “A queda”, dirigido por Scott Mann (Estados Unidos, lançado originalmente em 2022, 107 min). O filme já começa assustador: um casal e uma amiga escalando um paredão praticamente vertical: eles estão todos se divertindo até que o cara cai lá de cima. A mulher entra em profunda depressão e, um ano depois, a amiga que estava junto no paredão, para animá-la, sugere que as duas vão escalar uma torre de rádio no meio do deserto, a B67, um monstrengo esbelto, enferrujado e abandonado de 600 m de altura, prestes a ser desmontado. Elas sobem até o topo do negócio e lá começa o sofrimento, sobre o qual não vou comentar aqui para não estragar a surpresa. Só o que eu posso dizer é que elas mal tinham subido vinte degraus da escada de marinheiro até o topo e eu já estava, literalmente, tremendo com calafrios. E dali por diante a coisa só piorou. Não sei para que tanto sofrimento, minha gente. Imagem que acompanha o texto obtida no Claude. Se você estiver interessado em receber este outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Entre a inocência e o excesso: Minha leitura de Hakoiri
Impressões
Entre a inocência e o excesso: Minha leitura de Hakoiri
1 de agosto de 2026 0
Tinha comentado aqui sobre “Mulheres e seus desejos”, o primeiro mangá erótico que li. O próximo da lista foi “Hakoiri”, de uma autora chamada Cuvie (Nova Sampa, 180 páginas, traduzido por Rafael Sanzio, publicado originalmente em 2007, volume único). O livro é formado por três histórias. A primeira, “Hakoiri”, é a mais longa e conta a história de Shion, uma rica e linda herdeira que se apaixona por um pobretão chamado Kouichi. O avô dela, milionário, faz de tudo para impedir o relacionamento dos dois — inclusive tentar casar Shion com outro herdeiro ricaço. “Hakoiri” é cheio de reviravoltas, e tudo se resolve com a ajuda de outra menina linda chamada Satoko. Depois de “Hakoiri”, o livro conta com duas histórias curtas: “Paixão do Jovem Lobo”, sobre um jovem sedutor e mentiroso, e “Anormal”, uma história sobre um professor que seduz duas alunas adolescentes. Mesmo com todo o erotismo, a primeira é na linha de “menina rica apaixonada por um rapaz pobre”, tão comum em folhetins. “Paixão do Jovem Lobo” é disparada a mais interessante, uma história original e que parece ter uma reviravolta a cada página. Já “Anormal” é uma espécie de glorificação do assédio, extremamente desconfortável, para dizer o mínimo. Ainda me atrapalho com a linguagem rápida e meio caótica dos mangás, mas é um mundo fascinante, sem dúvida. E o traço de Cuvie é lindo. Imagem que acompanha o texto obtida no Google Gemini.
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