{"id":1678,"date":"2018-10-25T18:10:15","date_gmt":"2018-10-25T20:10:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.fabriciomuller.com.br\/engenharia\/?p=1678"},"modified":"2018-10-25T18:16:01","modified_gmt":"2018-10-25T20:16:01","slug":"o-manifesto-ecomodernista-e-a-energia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.fabriciomuller.com.br\/engenharia\/o-manifesto-ecomodernista-e-a-energia\/","title":{"rendered":"O Manifesto Ecomodernista e a energia"},"content":{"rendered":"<p>At\u00e9 75% da defloresta\u00e7\u00e3o global ocorreu <em>antes <\/em>da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. Uma sociedade ca\u00e7adora de n\u00e3o mais de dois milh\u00f5es de pessoas quase levou \u00e0 extin\u00e7\u00e3o dos grandes mam\u00edferos da Am\u00e9rica do Norte no pleistoceno tardio, \u00e9poca em que os seres humanos queimavam e destru\u00edam florestas em todo o continente. Na verdade, ao contr\u00e1rio do que parece dizer o senso comum, as tecnologias usadas pelos nossos ancestrais para satisfazer suas necessidades alcan\u00e7avam um padr\u00e3o de vida muito inferior ao atual, com um impacto per capita muito maior sobre o meio ambiente. De modo que, a menos que haja uma mortalidade em massa, qualquer tentativa de reconciliar a humanidade com a natureza, recorrendo a tecnologias semelhantes \u00e0s primitivas, resultaria em um desastre inapel\u00e1vel sob os pontos de vista ecol\u00f3gico e humano.<\/p>\n<p>De fato, o uso da tecnologia tem minimizado os potenciais danos da atua\u00e7\u00e3o dos seres humanos sobre a natureza. O uso m\u00e9dio de terra per capita, por exemplo, atualmente \u00e9 muito menor do que h\u00e1 cinco mil anos, embora as pessoas desfrutem de uma dieta muito mais rica. Gra\u00e7as aos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos na agricultura, desde meados dos anos sessenta a quantidade de terra necess\u00e1ria por pessoa para produzir alimentos e ra\u00e7\u00e3o animal foi reduzida \u00e0 metade. A intensifica\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, combinada com o menor uso de lenha como combust\u00edvel, permitiu o reflorestamento l\u00edquido em muitas partes do mundo. Quase 80% da Nova Inglaterra \u00e9 agora coberta por florestas, em compara\u00e7\u00e3o com cerca de 50% no final do s\u00e9culo XIX. Nos \u00faltimos vinte anos, a terra dedicada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de madeira em todo o mundo foi reduzida em 50 milh\u00f5es de hectares, uma \u00e1rea do tamanho da Fran\u00e7a. A &#8220;transi\u00e7\u00e3o florestal&#8221;, isto \u00e9, a etapa do desmatamento l\u00edquido ao reflorestamento, parece ser uma caracter\u00edstica permanente do desenvolvimento, assim como a transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica que reduz as taxas de fertilidade \u00e0 medida que a pobreza diminui. A utiliza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo tornou praticamente desnecess\u00e1ria a ca\u00e7a \u00e0s baleias, cujo \u00f3leo era utilizado extensivamente para calefa\u00e7\u00e3o e ilumina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As informa\u00e7\u00f5es acima<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> foram obtidas no <em>Manifesto Ecomodernista<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, escrito por \u201cacad\u00eamicos, cientistas, ativistas e cidad\u00e3os\u201d (a lista completa dos autores pode ser obtida <a href=\"http:\/\/www.ecomodernism.org\/authors\">neste link<\/a>) com a <em>\u201cconvic\u00e7\u00e3o de que o conhecimento e a tecnologia, aplicados com sabedoria, podem levar a um bom, ou mesmo \u00f3timo, Antropoceno<\/em><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><em>\u201d.<\/em><\/p>\n<p>A ideia principal por tr\u00e1s do <em>ecomodernismo <\/em>\u00e9 fazer com que a tecnologia permita uma ocupa\u00e7\u00e3o menor dos espa\u00e7os pelos seres humanos, de modo a permitir uma maior libera\u00e7\u00e3o para terrenos naturais: assim, <em>\u201ca urbaniza\u00e7\u00e3o, a intensifica\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, a energia nuclear, a acuacultura e a dessaliniza\u00e7\u00e3o, s\u00e3o processos com potencial para reduzir a explora\u00e7\u00e3o da natureza, dando espa\u00e7o a outras esp\u00e9cies. Em contraste, a suburbaniza\u00e7\u00e3o, a agricultura de recupera\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o de energia de gera\u00e7\u00e3o renov\u00e1vel exige mais e mais recursos, deixando menos espa\u00e7o \u00e0 natureza\u201d.<\/em> \u00a0De fato, <em>\u201c<\/em><em>um arranha-c\u00e9u com 400 apartamentos causa muito menos impacto a matas e nascentes do que 400 casas espalhadas por uma cidade<\/em><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>\u201d.<\/p>\n<p>O suprimento energ\u00e9tico ocupa parte importante do <em>Manifesto Ecomodernista<\/em>. Segundo seus autores, <em>\u201ca disponibilidade de energia barata permite que os pobres do mundo deixem de usar florestas como combust\u00edvel e cultivem mais alimentos em menos terra, usando instrumentos intensivos em energia, como fertilizantes e tratores\u201d.<\/em> O manifesto n\u00e3o nega o aquecimento global causado pelas emiss\u00f5es de CO2, e acrescenta que <em>\u201ca mitiga\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a clim\u00e1tica envolve significativamente um desafio tecnol\u00f3gico. Com isso, queremos dizer que mesmo uma limita\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica do consumo global per capita seria insuficiente para alcan\u00e7ar o efeito. Sem mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas profundas, n\u00e3o h\u00e1 maneira significativa de se salvar o meio ambiente.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Na contram\u00e3o de boa parte pensamento ambientalista, o <em>Manifesto Ecomodernista<\/em> defende que a maioria das formas de energia renov\u00e1vel \u00e9, infelizmente, incapaz de atingir tal objetivo: <em>\u201ca escala no uso da terra e outros impactos ambientais necess\u00e1rios para que os biocombust\u00edveis ou outras fontes renov\u00e1veis \u200b\u200bmovam o mundo s\u00e3o tais que duvidamos que eles sejam o caminho para um futuro com zero pegada de carbono\u201d<\/em>. No longo prazo, as fontes de energia que podem cumprir, de maneira plaus\u00edvel, o objetivo de fornecer a energia exigida por uma economia moderna mantendo o clima est\u00e1vel s\u00e3o a <em>nuclear<\/em> (fus\u00e3o e fiss\u00e3o) e as <em>pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es de pain\u00e9is solares<\/em> \u2013 neste caso espec\u00edfico, se acrescenta que <em>\u201cas atuais tecnologias de energia solar exigir\u00e3o inova\u00e7\u00f5es substanciais para alcan\u00e7ar o padr\u00e3o desejado\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, ainda segundo o <em>Manifesto Ecomodernista<\/em>, estas mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas ainda levar\u00e3o um tempo consider\u00e1vel: enquanto isso, <em>\u201coutras tecnologias de energia podem fornecer importantes benef\u00edcios sociais e ambientais. As usinas hidrel\u00e9tricas, por exemplo, s\u00e3o uma fonte barata de energia com baixa pegada de carbono para as na\u00e7\u00f5es pobres, por mais que seus impactos ambientais sejam consider\u00e1veis. Os combust\u00edveis f\u00f3sseis com captura e armazenamento de carbono tamb\u00e9m podem trazer benef\u00edcios ambientais substanciais em compara\u00e7\u00e3o com seu uso atual e os da biomassa.\u201d<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Com exce\u00e7\u00e3o do trecho sobre as baleias, obtido no artigo <em>\u201cComo o petr\u00f3leo salvou as baleias (e milh\u00f5es de hectares de florestas)\u201d<\/em> de Leandro Narloch &lt; <a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/cacador-de-mitos\/como-o-petroleo-salvou-as-baleias-e-milhoes-de-hectares-de-florestas\/\">https:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/cacador-de-mitos\/como-o-petroleo-salvou-as-baleias-e-milhoes-de-hectares-de-florestas\/<\/a> &gt;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> &lt; <a href=\"http:\/\/www.ecomodernism.org\/\">http:\/\/www.ecomodernism.org\/<\/a> &gt;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Conceito de intensa discuss\u00e3o em meios cient\u00edficos. Para os cientistas que defendem a oficializa\u00e7\u00e3o da transi\u00e7\u00e3o para o Antropoceno, a influ\u00eancia humana sobre o planeta teria impactado permanentemente a Terra, a ponto de justificar a ado\u00e7\u00e3o de uma nova \u00e9poca geol\u00f3gica que caracterize assim sua atividade. Obtido em &lt; <a href=\"https:\/\/www.ecycle.com.br\/5719-antropoceno\">https:\/\/www.ecycle.com.br\/5719-antropoceno<\/a> &gt;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a>\u00a0 &lt; <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/leandro-narloch\/2018\/07\/reacionarios-verdes-precisam-fazer-as-pazes-com-a-modernidade.shtml\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/leandro-narloch\/2018\/07\/reacionarios-verdes-precisam-fazer-as-pazes-com-a-modernidade.shtml<\/a> &gt;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 75% da defloresta\u00e7\u00e3o global ocorreu antes da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. 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